terça-feira, 15 de março de 2016

A Construção de José de Alencar

Quando você compra um Kindle, a primeira sensação é a de ter gasto uma grana em “literatura”, mas não ter livro algum pra ler. A mídia obrigatoriamente precisa ser preenchida, algo que fazemos aos poucos, conforme nos interessamos pelos títulos disponíveis e os compramos.

Uma grande jogada para aumentar a disponibilidade inicial de títulos é procurar pelos livros gratuitos. Não tem muitas opções nesta lista, mas uma que logo me chamou a atenção foi “COMO E PORQUE SOU ROMANCISTA” – de José de Alencar. Nós, aspirantes a romancistas, obscurecidos pela sombra pesada do fantástico José de Alencar, de Iracema e Senhora, somos atraídos a esta leitura, como se pudéssemos dela tentar beber algum segredo, ou encontrar um atalho para o talento literário.


O que faz um escritor de sucesso? Como estava citado em outro gratuito “101 DICAS para um escritor iniciante”:
“Existem três regras para escrever um romance. Infelizmente, ninguém sabe quais são.” W. Somerset Maugham
Ok. A busca de uma formula mágica é vã – isto eu já sabia. Provavelmente é algo mais complicado que isto. Tem algo a ver com buscar a empatia com sentimentos humanos bastante profundos, se possível compartilhados por diferentes culturas. Mas como tornar-se capaz de traduzir este imaginário coletivo? Como ganhar os leitores?

O livro de José de Alencar não responde, mas tem vários atrativos. Em primeiro lugar, a oportunidade de conhecer nosso idioma tal como era utilizado no Séc.XIX:
“Seria esse o livro dos meus livros. Si n´alguma hora de pachorra, me dispuzesse á refazer a cançada jornada dos quarenta e quatro annos, já completos; os curiosos de anedoctas literárias saberiam, além de muitas outras cousas mínimas, como a inspiração do Guarany, por mim escripto aos 27 annos, cahio na imaginação da criança de nove, ao atravessar as matas e sertões do norte em jornada do Ceará á Bahia.”
Também da época, o zelo na formação infantil, sem as licenças dadas hoje – tratados como pequenos adultos em franca competição:
“Então o excessivo rigor que se me tinha afigurado injusto, tomava o seu real aspecto; e me apparecia como o golpe rude, mas necessario que dá tempera ao aço.”
José de Alencar conta o ritual de vários dias de sua infância, em que a família se reunia para leitura em voz alta dos poucos títulos disponíveis – por vezes de forma repetida, numa época de mercado ainda mais restrito, e de edições relativamente mais caras. A despeito das dificuldades, acumular leituras e ter citações à proposito nas conversas parecia ser de grande distinção - uma habilidade a ser cultivada.

Também mostra que o interesse em ler as novidades que vinham da europa provocavam a necessidade de aprender novos idiomas. Alencar nos relata a luta em aprender o Francês, para que pudesse ler Victor Hugo e outros. Também sua passagem pelos clássicos romanos – uma formação muito mais pesada em ciências humanas.

E para escrever? Cadernos, pena e tinteiro, meus caros. Nada de editores de texto e Google à disposição. Não dá ainda mais admiração pelo que ele conseguiu produzir?




quinta-feira, 3 de março de 2016

A colisão das culturas

When Cultures Collide – de Richard Lewis, infelizmente ainda sem edição brasileira – reflete o esforço do autor em apresentar de forma sistemática as diferentes visões de mundo dos principais países, especialmente para facilitar a comunicação para ambientes de negócios.

Na primeira parte, Lewis, cujo currículo é rico em experiências em diferentes países, permite uma análise bastante ampla do fenômeno das culturas. A comunicação, que é influenciada pelas características da linguagem. Fatos históricos, que fazem prevalecer certos valores, ou criar oposições e preconceitos a diferentes povos, backgrounds religiosos diversos, etc. 

Todo este caldeirão interfere no ambiente em que as pessoas são criadas, e determinam a ênfase em determinados valores.

“Buses in Madagascar leave (…) not according to a predetermined timetable, but when the bus is full” (em tradução livre: os ônibus em Madagascar saem, não segundo um cronograma predeterminado, mas quando fica cheio)
“When Americans ask for whiskey, they mean bourbon; if they want whiskey they say Scotch” (quando os Americanos pedem uisque, eles querem dizer “bourbon”. Se quisessem uisque, diriam “scotch”)
Poucos de nós consegue fazer uma análise isenta da realidade de outro povo. Dessa diferença fundamental surgem muitos mal-entendidos, ou atrasos na necessidade de trabalho em equipe numa sociedade de consumo globalizada.


A segunda parte, é formada por capítulos dedicados aos principais players do mercado global. Assim, torna-se um livro de referência, mostrando como se comportam diferentes povos, notadamente Europa, América do Norte e Ásia. Na América do Sul, falam de vários também. A despeito do meu temor, não cai em clichês, ao menos quando falam do nosso Brasil.

O que falam do Brasil?

“Brazilians like to grab at easy, immediate solutions, the result often being a lack of long-term planning.” (Brasileiros comprometem-se com facilidade com soluções imediatas, frequentemente sendo o resultado a falta de um planejamento de longo termo).

Achei muito justo.Vale a leitura – que por enquanto requer o domínio do inglês.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sapiens, Uma breve história da Humanidade – Yuval Noal Harari

Não é sempre que um livro me absorve tanto. Veio para o seleto grupo dos meus top-10 favoritos e digo sem exageros que mudou meu modo de ver o mundo. Confirmou muitas ideias e ampliou tantas outras.

O que faz o autor me impressionar tanto é a sua escolha de argumentação. Deixa de lado as interpretações da realidade mais usuais – aquelas verdades e interpretações de mundo baseadas nas informações de nossa experiência, ou de nossos amigos e professores – e elevar esta escala de experiências a um plano da espécie. Ou seja, mais do que julgar se determinada religião ou ideologia política é boa ou ruim para nossas medidas transitórias, e morrer na praia dos argumentos de lado a lado – que tal olhar para trás e identificar o que estas ideias determinaram de REAL em nosso modo de vida, e como isso foi válido do ponto de vista da perpetuação da espécie: 

“Um número cada vez maior de estudiosos vê as culturas como um tipo de infecção ou parasita mental, sendo os humanos seus hospedeiros involuntários. Os parasitas orgânicos, como os vírus, vivem dentro do corpo de seus hospedeiros. Eles se multiplicam e se espalham de um hospedeiro a outro, alimentando-se deles, enfraquecendo-os e, às vezes, até os matando”(...)”Essa abordagem ás vezes é chamada de memética”

Resultado de imagem para Sapiens, Uma Breve história da humanidade – Yuval Noah HarariNessa ótica, o autor questiona verdades religiosas e políticas de tal forma que, se você preza essas crenças de maneira arraigada, pode se ofender. É até algo interessante para se auto-observar. Você vai manter a mente crítica? OU vai ficar p... da vida quando sua crença querida estiver sob a lupa do autor? Sua perspectiva antropológica tenta reduzir as questões a seus aspectos evolutivos. Para que serve - por que evolutivamente um determinado modo de agir ou pensar permaneceu vivo geração após geração. 

É claro que como todo texto, você ainda pode enxergar as nuances ideológicas do autor, mas é extremamente enriquecedor à medida em que emparelha mecanismos de controle social, a adaptação de nosso organismo a fatores importantes de nossa história, como mudanças climáticas, a “revolução agrícola”, a vida em aglomerados urbanos. Ao apresentar esses eventos pouco discutidos, mas tão importantes de nossa história, somos desafiados a uma nova forma de pensar:
“As plantas domesticaram o Homo sapiens, e não o contrário. Pense por um instante na Revolução Agrícola do ponto de vista do trigo. Há dez mil anos, o trigo era apenas uma gramínea silvestre, uma de muitas, confinada a uma pequena região do Oriente médio. De repente, em apenas alguns milênios, estava crescendo no mundo inteiro.”
Pretendo revisita-lo periodicamente, como literatura fundamental. E tão denso e interessante, que ao revisar meus grifos, enchi mais de três páginas em letras miúdas. 



Abaixo, alguns dos trechos mais provocativos. A característica jocosa do texto é um bônus:

Quando explicita que quando passamos a plantar, foi inevitável que se criassem sistemas de proteção do trabalho nas plantações. A propriedade e sistemas de poder seriam inevitavelmente criados. O “nós” contra “eles” também:

“A Revolução Agrícola certamente aumentou o total de alimentos à disposição da humanidade, mas os alimentos extras não se traduziram em uma dieta melhor ou em mais lazer. Em vez disso, se traduziram em explosões populacionais e elites favorecidas” 
“Em consequência, desde o advento da agricultura as preocupações com o futuro se tornaram atores importantes no teatro da mente humana” 
“O estresse representado pela agricultura teve consequências importantes. Foi a base dos sistemas políticos e sociais de grande escala”

Ao explicitar a luta entre “liberdade” e “igualdade” – na onipresente discussão entre esquerdas e direitas: 

“A era moderna testemunhou a ascensão de uma série de religiões baseadas em leis naturais, como o liberalismo, o comunismo, o capitalismo, o nacionalismo e o nazismo."
“Enquanto os humanistas liberais buscam tanta liberdade quanto possível para os indivíduos humanos, o humanismo socialista busca a igualdade entre todos os humanos.”
“ É fácil para nós aceitar que a divisão das pessoas em”superiores” e “comuns” é produto da imaginação. Mas a ideia de que todos os humanos são iguais também é um mito. Em que sentido todos os humanos são iguais uns aos outros? Existe alguma realidade objetiva, fora da imaginação humana, em que somos verdadeiramente iguais?”
“Acreditamos em uma ordem em particular não porque seja objetivamente verdadeira, mas porque acreditar nela nos permite cooperar de maneira eficaz e construir uma sociedade melhor”
“Voltaire afirmou, a respeito de Deus: “Deus não existe, mas não conte isso ao meu servo, para que ele não me mate durante a noite”.(...)“O Homo sapiens não tem direitos naturais, assim como aranhas, hienas e chimpanzés não têm direitos naturais. Mas não conte isso aos nossos servos, para que eles não nos matem durante a noite”
“A história da ética é um conto triste de ideais maravilhosos que ninguém consegue colocar em prática. A maioria dos cristãos não imitou Cristo, a maioria dos budistas não conseguiu seguir os passos de Buda, e a maioria dos confucianos teria causado um ataque de nervos a Confucio.”
 “Nos últimos dois séculos, a moeda da política são promessas de destruir o velho mundo e construir um mundo melhor em seu lugar. Nem mesmo o mais conservador dos partidos políticos promete meramente manter as coisas como estão”

A relação de amor e ódio com os mercados e a economia (troca de trabalhos entre humanos):

“os ganhos e a prosperidade trazidos pelo imperialismo romano propiciaram a Cicero, Seneca e Santo Agostinho o tempo livre e os recursos necessários para pensar e escrever”
“os lucros do império de Habsburgo, provenientes do domínio sobre suas províncias falantes de eslavo, húngaro e romeno, pagaram os salários de Haydn e as comissões de Mozart.”

A influência das religiões na legitimação das ordens sociais:

“As pessoas são diferentes, não porque Hamurabi disse isso, mas porque Enlil e Marduk decretaram isso. As pessoas são iguais não porque Thomas Jefferson disse isso, mas porque Deus as criou dessa maneira. Os livres mercados são o melhor sistema econômico não porque Adam Smith disse isso, mas porque essas são as leis imutáveis da natureza”
“Portanto, o primeiro efeito religioso da Revolução Agrícola foi transformar as plantas e os animais de membros iguais de uma mesa-redonda espiritual em propriedade.”
“Como os monoteístas costumam acreditar que são detentores de toda a mensagem de um único Deus, são compelidos a descrer de todas as outras religiões."
“Na verdade, o monoteismo, tal como se desenvolveu ao longo da historia, é um caleidoscópio de legados monoteístas, dualistas e politeístas que se misturam sob um único conceito divino. O cristão típico acredita no Deus monoteísta, mas também no Diabo dualista, em santos politeístas e em fantasmas animistas”

E um olhar crítico a todo e qualquer sistema – porque não importa o quanto digam que são “naturais” ou “de inspiração no bem” – todos são inventados, e há que se perceber e avaliar os prós e contras de suas premissas básicas:

“infelizmente, sociedades humanas complexas parecem exigir hierarquias imaginadas e discriminação injusta”
“Diferentemente das leis da física, que estão livres de inconsistências, toda ordem criada pelo homem é cheia de contradições, e esse processo alimenta a mudança.”
“Pessoas do mundo inteiro pouco a pouco passaram a ver a igualdade e a liberdade individual como valores fundamentais. Mas os dois valores são contraditórios”
“Da mesma forma que duas notas musicais discordantes tocadas ao mesmo tempo colocam em movimento uma composição musical,  a dissonância em nossos pensamentos, ideias e valores nos compele a pensar, reavaliar e criticar. A consistência é o parque de diversões das mentes entorpecidas”
“As pessoas continua a conduzir uma luta heroica contra o racismo sem perceber que a frente de batalha mudou, e que o lugar do racismo na ideologia imperialista foi substituído pelo “culturismo”. A palavra “culturismo” não existe, mas já está em tempo de a inventarmos”
 “...que permite que os bancos – e toda a economia – sobrevivam e floresçam é nossa confiança no futuro. Essa confiança é a única garantia para a maior parte do dinheiro do mundo” (...) “O recurso econômico mais importante é a confiança no futuro, e esse recurso é constantemente ameaçado por ladrões e charlatães”

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Quincas Borba

“Ao vencedor, as Batatas!” 

Para entender a frase acima, célebre característica desta obra de Machado de Assis, é preciso ler o livro. Não vou dar colher de chá neste aspecto. Esta releitura foi parte do plano para deixar resenhadas as leituras mais importantes, e não esquecê-las mais.


Ao sempre delicioso estilo de Machado de Assis, que faz imagens divertidas para traduzir os sentimentos e ideias de seus personagens, o livro relata a história de Rubião, professor simples em Barbacena, que cuida do amigo Quincas Borba (mesmo personagem de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”) em seus dias finais, e herda toda sua fortuna. Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, sua simplicidade o leva a ser explorado pelos novos “amigos”, levando-lhe pouco a pouco as esperanças de um futuro tranquilo e por fim sua sanidade mental. 

Durante todo o livro, o modo de ser simples de Rubião, e o cuidado temeroso que tem com o simpático cão (que também se chama Quincas Borba e cuja guarda era uma das condições do testamento do Homônimo) nos faz simpatizar com ele – desejar sua felicidade, mesmo se reprovarmos seus adultérios e pequenas ambições manifestas.


No entanto, é com a loucura do personagem principal que Machado de Assis, ainda irônico e fazendo comédias, joga por terra esta esperança. Não me entendam mal, o livro é muito bom, mas deixa na gente aquela sensação do final que não desejávamos. 

Ao final, pode-se dizer (sem estragar a leitura de ninguém) que me senti sem vencedor, nem batatas. E para me consolar, apenas a verdade contundente na pena de Machado de Assis:
“Eia! Chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.”

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Retrato de Dorian Gray

Em minhas metas de leitura de 2012, precisava acrescentar alguns clássicos a meu currículo. Foi assim que peguei “O Retrato de Dorian Gray” da prateleira – obra de Oscar Wilde, e agora aproveito para compartilhar minhas impressões.

Autor conhecido pelo homossexualismo numa época em que isso era um enorme tabu (era um tabu?) e pela vida de “dândi” que levou em Londres, Wilde deixa muito de sua própria vivência e entendimento do ser humano neste livro.

Narciso - Caravaggio
A maioria de suas obras não foram romances, mas poesias e peças para teatro, pelo que soube. Ainda assim, faz jus ao título de “clássico da literatura”, pois é denso e bem escrito. O primeiro contato com o livro deixa uma sensação de ritmo lento.  E então, com um fato surpreendente (que não cito aqui para não me tornar “spoiler”), o autor faz o ritmo lento tornar-se mais frenético, e o livro segue interessante até o final. Descompromissados como quem olha a paisagem urbana pela janela de um trem, podemos observar no decorrer da história a vida na nata de uma sociedade rica, sem preocupações por sobrevivência, já anestesiada de suas culpas.
“Costuma-se dizer que a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só o medíocre não julga pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível... Sim, Sr. Gray, os deuses foram generosos para com o senhor. Mas o que os deuses dão, tomam logo em seguida. O senhor não tem senão uns poucos anos para viver verdadeiramente, perfeitamente, plenamente. Quando a sua juventude se desvanecer, a sua beleza ir-se-á com ela, e, então, descobrirá que nada ficou dos seus triunfos, ou terá de se conformar com esses êxitos insignificantes, que a lembrança do passado torna ainda mais amargos que derrotas.”
O homoerotismo subjacente aparece nas relações de admiração e controle entre os personagens masculinos iniciais. A misoginia aparece no retrato das mulheres durante o livro – mas aparecem como crítica, não determinismo ou preconceito. São construídos cenários retratando a sociedade fútil da época, mas que, tendo ainda em seus membros a educação sólida de infância, sobra em criatividade para justificar sua inutilidade. Num estilo de vida em que tudo está garantido, os prazeres simples perdem em interesse, e é preciso drogas cada vez mais pesadas. É assim que as personagens trocam frases sarcásticas, polêmicas e desesperançosas.
“Meu caro amigo, nenhuma mulher é gênio. As mulheres são um sexo decorativo. Não têm nunca nada a dizer, mas dizem-no de um modo encantador. As mulheres representam o triunfo da matéria sobre a inteligência, exatamente como os homens representam o triunfo da inteligência sobre os costumes.”
O sarcasmo é uma cortina de fumaça para esconder problemas de autoestima. Nas frases inteligentes e na influência sutil de um personagem sobre o outro, aparece a genialidade do autor, mas também sua prisão e fragilidade. De forma semelhante, o caçador tem a vida da caça na ponta de seus dedos, mas é escravo de mantê-los no gatilho, por precisar dela o suprimento de adrenalina para justificar sua existência.

"Verdade é que todo aquele que observava a vida, em seu estanho crisol de dor e prazer, não podia usar máscara de vidro no rosto, nem impedir que os vapores sulfurosos lhe perturbassem o cérebro e turvassem a imaginação com monstruosas fantasias e sonhos informes. Havia venenos tão sutis que, para conhecer-lhes as propriedades, fazia-se mister experimentar seus efeitos em si mesmo. E enfermidades tão estranhas que era preciso tê-las sofrido, para compreender-lhes a natureza.”

domingo, 21 de junho de 2015

Todos os Elogios a Aluísio Azevedo

Lido na época dos "livros obrigatórios" do ensino médio, O CORTIÇO – de Aluísio Azevedo - não tinha me chamado a atenção. Ok, sejamos justos com a obra. Talvez eu tenha lido só algum resumo para passar na prova, pois hoje penso ser impossível passar por ele sem gostar. Desta vez foi uma leitura completamente nova, que diferença! Foi um verdadeiro prazer passar pelas páginas de "o cortiço", que passa para mim a ocupar honrosamente a posição de obra favorita da literatura nacional.


A Sensualidade das Lavadeiras de Carybé
Por toda a obra, é muito forte a capacidade de descrição do ambiente, onde os personagens se inserem de maneira natural. E o ritmo que consegue manter? Praticamente você não é capaz de se desgrudar do livro. Sempre acontece alguma coisa ou se introduz alguma figura interessante. São essas características, a meu ver, que fazem que O CORTIÇO seja tão indicado.

"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.

Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.

A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.

Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono, ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons dias; reatavam-se conversas interrompidas à noite..."

Não é visceral? Você obviamente não quer a vida de exploração e privação desses personagens, mas sente como eles a intensidade de sua experiência e simplicidade. O gosto do café, o cheiro da roupa limpa, a delícia de ver a vida como criança, sem muito futuro, sem muita complexidade.

Para mim, uma das mais realistas e belas descrições da condição masculina:
"Jerônimo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos de restilo que havia no copo.

Sóbrio como era, e depois daquele dispêndio de suor, o álcool produziu-lhe logo de pronto o feito voluptuoso e agradável da embriaguez nos que não são bêbedos: um delicioso desfalecer de todo o corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede à satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ela algum tempo, aproxima-se afinal de nós, numa avidez gulosa de beijos."

"Pombinha, impressionada pela transformação da voz dele, levantou o rosto e viu que as lágrimas lhe desfilavam duas a duas, três a três, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa estranha, ela, que escrevera tantas cartas naquelas mesmas condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do cortiço, sobressaltava-se agora com os desalentados soluções do ferreiro.

Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em seu pleno desenvolvimento, uma lucidez que a deliciava e surpreendia. Não a comovera tanto a revolução física. Como que naquele instante o mundo inteiro se despia à sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das suas paixões. Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea.

(...)

Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre eles, a tal ponto , que os infelizes, carregados de desonra e de ludibrio, ainda vinham covardes e suplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ela lhes fizera?...
E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua própria força e do seu próprio valor.
Sorriu.
E no seu sorriso já havia garras."
(...)
E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no entanto fora posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um pouco, precisava tirar dela sua mesma ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranquilamente desfrutando o seu império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis aceitavam contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.”
Uma única reserva – não com o conteúdo, mas com a edição antiga da Editora Ática, que é de baixa qualidade. Acho que o foco dessas obras indicadas para vestibular é que sejam baratas - então desmontou todinha na minha mão. Tem ainda um espaço entre linhas bastante pequeno e desconfortável.



Leitura fundamental! Devo ser louco de não ter lido mais nada deste autor, e pretendo remediar isto em breve! Qual deve ser o próximo?

sábado, 20 de junho de 2015

O Crime do Padre Amaro

Discutir a influência política que as religiões são capazes de exercer. Esta é a principal ideia de “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz. O autor deixa de lado os finais felizes românticos e engaja-se politicamente, num texto (que hoje seria explicito, quase ingênuo) de crítica ao fator político imposto pela igreja e seus representantes, ao mesmo tempo em que com maestria conduz uma história humana, de desejos e luta com convenções e proibições sociais.

Mexer com Símbolos Religiosos dá um IBOPE danado...
Há duas facetas interessantes no texto. Na primeira, o envolvimento político da igreja, presente até hoje, quando vemos a força de congressos eleitos por rebanhos fieis, e a baixa permeabilidade da sociedade a novas formas de família, questões ligadas à sexualidade, aborto, suicídio, entre outros. Num retrato patético da conexão entre política e religião, basta ver o rosto constrangido de políticos declaradamente ateus, visitando cerimônias religiosas em épocas eleitorais.

Se o engajamento político da obra ficou para mim um tanto datado - baseado nas aspirações de gerações que já passaram pelo teste da história (embora alguns teimosos contradigam fatos e ainda se apeguem ao passado) -  o segundo aspecto fala da natureza humana, tema que está sempre ali:  nos intermináveis diálogos que travamos com nós mesmos. Mostra que nem mesmo os padres e beatas mais dedicados estão livres de sentirem o sangue nas veias, e qual inexpugnável deveria ser seu arcabouço teológico para lidar com a avalanche de pensamentos geradas por um decote generoso ou um discurso poderoso.

Achou o modelito sensual?
Mais um belo exemplar de nossa literatura reconhecido para além dos limites de nosso idioma: escrito com habilidade, com um ritmo bastante adequado, descrições só quando necessárias (e nesses momentos são viscerais, deliciosas). Uma pena que quando adolescente, não gostei do livro apenas porque sua leitura foi imposta pela escola.

Se você tem sensibilidade à crítica religiosa, não se preocupe. Nenhum dos argumentos é leviano. E o próprio autor, após pesadas críticas aos sacerdotes, coloca ao final do livro a personagem do abade, que redime a classe religiosa e contemporiza ao mostrar a importância de uma vida espiritual - mesmo que mantenha a posição de que a religião nem sempre leve a este objetivo.

Frases selecionadas:

“Na sua cela, havia uma imagem da Virgem coroada de estrelas, pousada sobre a esfera, com um olhar errante pela luz imortal, calcando aos pés a serpente. Amaro voltava-se para ela como para um refúgio, rezava-lhe a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a litografia, esquecia a santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura; amava-a; suspirava, despindo-se olhava-a de revés lubricamente; e mesmo a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da túnica azul da imagem e supor formas, redondezas, uma carne branca...Julgava então ver os olhos do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama de água benta; mas não se atrevia a revelar estes delírios, no confessionário, ao domingo.”

“- Estou a dizer a verdade. Em que consiste a educação dum sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a supressão violenta dos sentimentos mais naturais. Secundo: em evitar todo o conhecimento e toda a idéia que seja capaz de abalar a fé católica; isto é, a supressão forçada do espírito de indagação e de exame; portanto de toda a ciência real e humana...”

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Games para Resolver Nossos Problemas

"Sai desse videogame! Você não vai ser nada na vida se ficar só jogando!". 

Já ouviu sua mãe berrar essa frase? Pode ser que sim ou não, mas é provável que já desejou no seu íntimo que ir à escola ou trabalhar fossem tão divertidos quanto desvendar as fases de seu game favorito e ganhar pontos e "badges".

Campeonatos de Videogames movimentam dinheiro suficiente para times profissionais
Como qualquer mamífero, somos programados geneticamente para aprender brincando. Grandes felinos brincam de caçar, aguçando suas capacidades. Da mesma forma, nos jardins-de-infância as crianças interagem, aprendendo linguagem e regras sociais, negociando para defender seus pontos de vista. 

É baseado nessa premissa que escolas bem sucedidas fazem cada vez mais o ensino ter relação com a prática e com a vida. Também aproveitamos nossa gana por pontos em programas de relacionamentos de empresas. 

Nos aplicativos de nosso celular, as regras nos conferem status diferenciados conforme contribuímos para uma tarefa, ou fornecemos informações do trânsito, ou visitamos lugares - fenômeno chamado crowdsourcing. Nos sites de leitura, atire a primeira pedra quem não olhou com orgulho para seu "paginômetro". As redes sociais são divididas entre os viciados em jogos online e os indivíduos de saco cheio de receber convites.


Esbarrei por acaso no livro "Gamification: Como criar experiências de Aprendizagem engajadoras / Um guia completo do conceito à prática" de Flora Alves. Estava no aeroporto para enfrentar um voo longo e me vi sem "munição" de leitura - sendo obrigado a recorrer a uma livraria. Além do interesse natural pelo tema, escolhi este livro porque trabalho no desenvolvimento humano nas empresas e dou aulas.

Ao ler o livro, pareceu um pouco como se alguém tivesse pesquisado o tema no google, analisando e pinçando os resultados mais relevantes. É uma ótima introdução a um assunto que eu imagino que fará cada vez mais parte de nossas vidas. A autora não promete esgotar o tema, mas faz uma apresentação bem didática do mesmo. 

É eficaz ao mostrar as ideias gerais de como incorporar estratégias de games nas resolução dos problemas do dia a dia. Dá pistas de como saber mais a respeito, seja compartilhando impressões sobre diferentes estudos na área, seja divulgando links para cursos e dicas diversas. Tudo entregue como num game, com uma barra de progresso a cada capítulo, e tópicos indicando o que esperar de cada etapa. Super amigável.


Somos uma geração que cresceu jogando, e muitos adultos continuam a investir em jogos, que estão cada vez mais elaborados. Muita gente que está participando de games online. Campeonatos já distribuem grana suficiente para justificar times profissionais. Em consequência, é normal que cada vez mais pessoas se sensibilizem sobre Gamification (Clique aqui para conhecer o curso gratuito da Coursera).

Parece que as mães vão perder essa batalha!




terça-feira, 9 de junho de 2015

O Mal que nos Habita - O Médico e o Monstro

Acabo de chegar ao fim de “O estranho caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde” – mais conhecido como o “O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson (Selo Penguin – Companhia das Letras). Sucesso desde quando foi editado pela primeira vez em 1886, o livro é pequeno, de ritmo eletrizante, bem escrito, enfim: é de ler num fôlego.

E se para passar por seu número pequeno de páginas não é requerido esforço, tive alguma dúvida quanto a escolher inicia-lo. O que poderia ter de interessante num título tão conhecido, com tantas adaptações para teatro, cinema, televisão? Nesta resenha não corri o risco de ser “spoiler”. A história do médico bom que toma uma poção e torna-se mau é conhecida de todos! Faz quase parte do imaginário, desde o desenho do scooby-doo, até outras obras conhecidas, em que esta formula do “duplo” personagem se repete: “Silêncio dos Inocentes”,"Hulk", “Psicose”, etc.


Mas é aí que o clássico mostra a genialidade que o fez sobreviver mais de um século. Da safra de grandes escritores da literatura britânica, o autor escolhe um caminho interessante para entregar-nos a história. Não é um narrador onisciente, ou o próprio Dr. Jekyll (este escreve-nos apenas no último capítulo) quem conta “o estranho caso”. Ele é retratado sempre por personagens coadjuvantes, em incidentes aparentemente desconexos. O artifício aumenta as lacunas nas histórias, contadas por diferentes pontos de vista, o que aumenta o suspense. 

Você sabe o que está acontecendo, e ao mesmo tempo só consegue conectar os capítulos página à página. Não dá pra saber o que vem à frente, numa literatura que imita a atmosfera da Londres daquela época – enevoada e misteriosa – talvez um dos primeiros exemplos de metrópole que permite tanto uma sociedade rica e complexa, quanto anônima e entregue aos seus vícios.


O retrato do honrado Dr. Jekyll, e do malévolo Dr. Hyde vai se desenhando na tela mental, como num “download” lento. Aos poucos, vamos percebendo que não se trata de mera literatura fantástica ou gótica, de terror... não é obra para rotular. A ideia de que somos seres complexos e de que não somos “donos” das emoções que sentimos dói em nosso orgulho de autocontrole, mas nos é familiar e irrefutável. 

No íntimo, todos sentimos a tensão entre o velho primata que nos deu origem, e o indivíduo racional/religioso/moral que tentamos manter vivo e construir na sociedade moderna. É um equilíbrio tênue, e tropeços se acumulam por toda parte: dos casos extraconjugais às páginas policiais, nosso poder de destruir é tão forte quanto nossa arte e espiritualidade. 

Sentados pelos bares a tomar nossas “poções”, ou no intervalo entre a vigília e o sono, nossos sonhos e desejos afloram clamando por seu espaço. Se atendidos completamente, reivindicam avidamente por prioridade, levando com seu imediatismo animal os alicerces de nossas construções culturais mais elaboradas. Se fortemente inibidos, somatizam-se em dores e loucuras, provando que são parte inerente de nós, tanto quanto é inerente à humanidade o uso de substâncias para se perder de si mesmo. 

O "estranho caso" é uma leitura deliciosa, e nem é assim tão estranho ou infrequente. Aprecie sem moderação.

Encontre/Adicione/Compre:
Catálogo Companhia das Letras - Penguin
Skoob
Orelha de Livro

Posts relacionados:
- Caixa do Correio - Clássico da Companhia das Letras

sábado, 21 de fevereiro de 2015

De Mosaicos a Caleidoscopios

Somos todos diferentes. Diferentes traços genéticos nos definem feições, pesos e alturas diversos – um mosaico humano. Nossos talentos são diversos: uns são sensíveis às artes, outros hábeis com as mãos – ou raciocinam de maneira abstrata, desafiando os limites do universo. Somos gregários ou reservados, espirituais ou pragmáticos, ou qualquer posição nesses espectros entre o claro e o escuro.
Atirados no nascimento a um mundo que gira a 1660km/h – numa cultura que começou muito antes de chegarmos, somos esponjas a tentar entender nosso entorno. Desenvolvemos linguagem, habilidades motoras, preferências – e vamos assim plantando os alicerces para nos sentirmos seguros para nossas decisões e ações – um mosaico ideológico.

É desses alicerces que derivamos nossa visão de mundo, que construímos nossas certezas. Não há interpretação que façamos sem o filtro de nossas internalizadas ideologias. Essas certezas construídas são tão diversas quanto nossos modos de ser, mas nos aglutinamos em torno daqueles que se parecem conosco, e passamos a nos sentir parte de um todo.

Os coletivos pensam pelos indivíduos – o que também parece ser típico de nossa espécie – e formam-se estruturas de poder. Capazes de proteger seus “iguais”, essas estruturas se impõe a outras, arrebanham fiéis, elegem adversários. Surgem as agremiações, as religiões, os partidos políticos. Haverá nas ideologias vários alertas sobre as tentativas dos outros grupos em abalar “a única Verdade”.A esta altura, o indivíduo diluído que ousar questionar seu coletivo sofrerá sanções.

A luta de uma sociedade por suas verdades leva a extremos, como nos mostra a jornalista Barbara Demick, no livro “NADA A INVEJAR, Vidas Comuns na Coreia do Norte”, que coletou relatos chocantes de pessoas que fugiram daquele país. As ideias socialistas se associaram ao confucionismo e a outros elementos culturais da península, resultando num regime político socialista e hereditário. O Partido dos Trabalhadores coreano representa os organizadores do regime, que coordena todos os meios de produção, estabelece leis e escolhe como fazê-las cumprir.

Entre a china e a Coreia do Sul, a noite sem eletricidade da Coreia do norte

Com a abertura das economias chinesa e soviética a práticas capitalistas, a Coreia do Norte perde apoios. Sua dedicação a um programa nuclear complementam as justificativas para um embargo, relegando à miséria seus mais de 23 milhões de habitantes. Ajuda humanitária tenta prover comida, mas pessoas com mais influência utilizam seu poder para disputar os escassos recursos. E há sempre gente disposta a defender regimes totalitários dos quais seus habitantes arriscam a vida para fugir.

O exemplo extremo deste país e os trechos de fome e violência do livro mostraram para mim os riscos dessa rigidez, também presente em nossas vidas. Nossos mosaicos limitam nossa visão da realidade.  Somos cheios de certezas, quando deveríamos “ser” mais dúvidas. Nossa recente passado político exemplifica nossa capacidade limitada de questionar tais mosaicos. Todos representamos coletivos que até hoje se enraivecem com os argumentos das outras partes a questionar nossas certezas.


Se pudéssemos alternar diferentes ângulos de visão ou sacudir esses mosaicos ideológicos às exigências da realidade, passaríamos de estruturas fixas a caleidoscópios, com maior diversidade. Nas múltiplas possibilidades, poderíamos buscar as alternativas mais ajustáveis a cada momento, livres de certezas construídas no passado de ideologias extremadas. Para isto, é preciso a coragem de deixar certezas para trás, expor-se a novos grupos e novos arranjos de ideias, enriquecendo nosso senso crítico. Estaríamos assim mais aptos a vencer a fome de alimento, cultura, planejamento e respeito mútuo em que nos colocamos.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Comentando a Obra de Alguém que Conhecemos

Comentar o livro de um escritor que conhecemos é muito difícil.

Adorei seu Livro!
O que pensará o autor, quando aquele aspecto da obra que ele tanto se esforçou para produzir não for bem recebido? Terá ele vontade de desqualificar o crítico com um sonoro: “BAH! Você não entendeu nada!”? O que sentirá aquele parceiro do blog, que nos presenteou com seu livro para vê-lo divulgado, e agora vê que desestimulamos seus potenciais leitores?

Quando comecei a escrever as resenhas no Dose Literária, sempre soube que as pessoas não querem um resumo da obra – algo que só serviria como “spoiler”. A expectativa do leitor, penso, é por uma opinião! O que tem de legal neste livro? O que poderia ser melhor? Vale a pena tentar obtê-lo e dedicar tempo a ele? É importante falar do polêmico – daquilo que agradou ou desagradou de maneira mais marcante. São esses detalhes que criam interesse, que atraem o leitor. São esses aspectos que estimulam a leitura, que acho que é no fundo o nosso papel mais nobre aqui.

Escrever expõe o autor. Para fazer algo realmente original, é importante ir fundo na alma, e com isso colocar para fora várias de nossas conclusões e ideias de mundo. A essas ideias originais, soma-se a técnica, e o trabalho de revisão. Como dar fluência às ideias, como prender o suspense, como desenhar cenários e personagens e direcionar o olhar da mente do leitor – são todas coisas difíceis de fazer, que fazem o ato de escrever tão instigante.

"Eu quero qualquer coisa que ele ousar me servir!"
Se são nossas ideias, podemos nos levantar por elas, acreditar em seu valor e lutar para defende-las, mas é sempre doloroso vê-las pisoteadas por críticas. É duro quando alguém mostra um furo em nossas roupas. Expostas nas páginas, nossas particulares opiniões sobre o mundo ficam ali, nuas, apresentadas para que as pessoas gostem ou não. E como toda a leitura, haverá aqueles que se identificarão de pronto com o conteúdo, e outros cuja estrutura mental se distanciará de nossas ideias, como polos magnéticos iguais.

Num certo sentido, é muito mais fácil falar de um autor que já morreu, ou que é tão famoso que não vai aparecer por aqui e nos confrontar. Desses seres de mármore nós podemos falar despudoradamente do que gostamos ou não, ou sobre modismos que despontam em tons de cinza ou em séries intermináveis que vendem um monte de exemplares. Nossa opinião não precisa ser unanime. Ela interessa aos leitores, e cabe a eles ressoar em favor ou contra a maneira como essas obras nos tocaram.

No caso de autores mais “mortais”, no entanto, desperta aquele cuidado. Temos, claro, o compromisso com nossos leitores, mas também o de não sermos desestimulantes com os novos talentos. O feedback não representa a verdade, mas apenas como aquela determinada obra nos impactou. Está sujeito a toda sorte de percalços nesta interpretação, como nosso apreço ou rejeição ao estilo, nosso grau de conhecimento sobre o tema abordado, nosso histórico de vida e leituras. O fato de não termos gostado de um livro quer dizer apenas isso – que não gostamos dele – e não que ele seja ruim e não mereça apreciação por outros.

Talvez seja um pudor excessivo, mas o sinto por me colocar nos sapatos de escritor. Também eu tenho minhas crias ao sol, tentando seu espaço. As companheiras do blog, felizmente têm me poupado de uma análise esmiuçada de meu romance “Aprendi a me Amar”, não sei por quanto tempo. Pessoalmente, acho-o leve e singelo – com trechos bonitos, com mensagens válidas. Também enxergo nele minha inexperiência, desde alguns trechos muito simples, até todo o processo para sua publicação. Enfim, é preciso começar de algum lugar, mas se recebermos uma paulada logo ao tirar a cabeça da toca, pode faltar coragem para uma nova tentativa.

Podemos aqui destacar pontos fortes e fracos, mas isto nunca deveria ser visto como um desestimulo aos autores. É certo que escrever é um ato de coragem.  Atos de coragem têm sempre valor.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A Volta ao Mundo em 80 Dias - Julio Verne

Provavelmente a obra mais conhecida do autor, e sucesso ao redor do mundo, foi meu primeiro livro lido no Kindle. Um belo contraste, ler uma obra de 1873 numa mídia eletrônica.

E esse contraste é o mais saboroso da leitura deste livro. Com a evolução tecnológica dos meios de transportes, pela primeira vez na história da humanidade se tornava possível a um indivíduo provido de recursos dar a volta ao mundo, alternando-se entre navios e trens.

É claro, o mundo daquela época não era tão rico em intercomunicações. O tempo antes da internet e das viagens de avião permitia que cada cultura permanecesse intocada. Viajar era, então, a chance de contato com quase alienígenas. Embora fossem civilizações humanas, as roupas, hábitos e religiões eram profundamente diferentes, e não se conheciam.

O Itinerário
Os protagonistas do livro - o nobre Mr. Phileas Fogg e seu criado Passepartout – numa brincadeira com sua origem francesa, indicando ser capaz de passar por tudo – conseguem superar dificuldades com o idioma, diferenças na gastronomia, passagem por fronteiras, vistos, etc – em sua luta por vencer uma aposta – a volta ao mundo em 80 dias, retornando a Londres.

“Já sei o que é, respondeu Fix. Você olhou a hora de Londres, que está quase duas horas atrasada em relação à de Suez. Tem de acertar seu relógio pela hora local de cada país.
 - Eu! Tocar no meu relógio! Exclamou Passepartout, jamais!
 - Então ele não estará mais de acordo com o sol.
 - Tanto pior para o sol, senhor! Ele é que estará errado!”

Julio Verne, francês, exagera as características inglesas, como a frieza e pontualidade a um nível cômico. Também ressalta a latinidade do francês, com uma postura mais emotiva e humana. Há o deslumbramento diante de cada cultura. Como terá sido para o autor reunir tamanha quantidade de informações sobre diferentes países e religiões? Será que viajou? Conhecia pessoas e obras em diferentes lugares? Pesquisou tudo para escrever seu romance?
O momento em que Fogg aposta sua fortuna no sucesso da viagem
É claro que as vezes as descrições soam estranhas – sugerindo que ele não tinha exatamente ideia do que estava falando – como ao descrever uma manga:

“mangas, de bom tamanho, castanho escuro por fora e de um vermelho muito vivo por dentro, e cujo fruto branco, ao desfazer-se entre os lábios, proporciona aos verdadeiros gourmets um prazer sem igual.”

Por vezes, soa estranho a tradução antiga, como ao descrever o saquê e os quimonos:

“´kirimon´, espécie de roupão cingido por uma faixa de senda formando na cintura, pelo lado de trás, um laço extravagante.”
“Saki, licor tirado do arroz em fermentação...”

Mas o resultado final vale muito a pena. E assim descreve o caminho percorrido, os percalços, as aventuras, num ritmo bastante adolescente, despretensioso de ser um livro culto, mas claramente comprometido com o entretenimento. E que diversão! O livro tem ritmo suave, gostoso, e um final bastante surpreendente. 



E aí, você prefere viajar pelos livros ou de verdade?